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O meu berço é D'ouro!



O Porto é varonil, o que é uma raridade. E cheira a mar.
Se a memória não me trai, assim tomada de relance, semelhantes filhos varões, a humanidade só pariu o belíssimo Rio de Janeiro e o antiquíssimo Cairo. Como neles, também pelas ruas estreitas da baixa portuense formigam casais de turistas pela justa idade d’ouro.
D'ouro o casario de tez flamejante no rio espelhado. D'ouro a luz nas clarabóias, cristais que sobejam de outrora, torcidos em molduras metálicas e toldados por diligentes Ariadnes da fortuna.





Pálidas as mãos e as paredes, que o tempo deliu.
Alvos os cabelos, que o saber (ou um qualquer desgosto) caiou, e os lençóis nos varandins hasteados. Roupa a secar, imaculada como a virgem que borda o escudo da cidade em que o ouro, às vezes, é azul e branco.
Clássicos, os calções até ao joelho, os sapatos sem atacadores, os blusões claros de fecho e molas. As janelas de guilhotina que oferecem vistas obsequiosas.
Abertas as bocas pasmadas: cheira a mar, mas não sopra o zéfiro. Ainda a manhã segue moça e há um admirável mundo novo no Porto surpreendente, se a sorte dobra em cada esquina e se o sol já toca a torre, sobre a névoa.
Cá dentro,  um grasnar alvoroçado de aves, rente aos telhados. Laborioso, dir-se-ia. Na rua, uma acordeonista, ora enfuna ora dedilha a valsa da Amélie. Hoje, triste. Deixemo-la! Amanhã tocará mais leda.
Um casal de namorados beija-se ardentemente de pé. É impossível não arregalar retina ou deter menina! Tudo em redor é cinza, mas o par é rubro, como as pedras onde medram amendoais.
Cheira a mar.
Se, na Primavera, a minha cidade cheira a tília, a tília e mar, já no Outono os seus aromas são frutados. Soltam-se, pelas ruas da cidade, os perfumes envolventes dos assadores de castanhas e da frescura agri-doce das tangerinas, que os miúdos descascam nos recreios das escolas. E no Inverno, no Inverno cheira-me a magnólias e a café torrado. E ainda a mar.

Mas eu não posso falar-te da minha cidade. Não terminaria nunca!

Teria de contar-te como os arquitectos salpicaram de branco - asa de gaivota - o mais pardo granito, para ser amado por pintores e cantado por poetas. E ficaria tudo por dizer. «DAQUI HOUVE NOME PORTUGAL...» e as primeiras páginas penduradas nos quiosques corroboram: ontem, o Raul marcou o golo preci(o)so pela selecção.



Mirando o Douro, com o rio a correr no olhar e o tempo a correr na pele.






Fotografia do André (captada em 2003 com a velhinha Epson)





1 comentário:

náufrago_do_tempo_e_lugar disse...

Na cor dos olhos o cerúleo manto,
No corpo e na alma, da Invicta o brio,
No ouro dos cabelos corre o rio,
E nos lábios, da liberdade o canto.



Bonitas menagens: a granítica, a verbal e a imagética.

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